Terapia Focal no Câncer de Próstata | Dr. Thiago Mourão

Terapia Focal no Câncer de Próstata: HIFU e Crioterapia em São Paulo

A terapia focal representa uma mudança de paradigma no tratamento do câncer de próstata: em vez de tratar toda a glândula, o princípio é destruir apenas a área comprovadamente doente, preservando o tecido saudável ao redor. Essa abordagem intermediária — entre a vigilância ativa e a cirurgia radical — desperta interesse crescente em homens diagnosticados com doença localizada de risco baixo a intermediário, especialmente aqueles preocupados com os efeitos colaterais do tratamento convencional. As duas tecnologias principais hoje disponíveis são o HIFU (ultrassom focalizado de alta intensidade) e a crioterapia, ambas capazes de fazer uma ablação — destruir — o foco tumoral com preservação das estruturas neurovasculares responsáveis pela continência urinária e função erétil. Entender quando a terapia focal é realmente adequada, quais pacientes se beneficiam e o que esperar em termos de controle oncológico é fundamental para uma decisão compartilhada informada.

O que é terapia focal e como funciona

Terapia focal é um conjunto de técnicas minimamente invasivas que destroem o tumor prostático de forma direcionada, preservando o restante da glândula. A analogia mais útil é com a lumpectomia no câncer de mama: em vez de remover toda a próstata (prostatectomia radical), remove-se ou destrói-se apenas o segmento afetado.

As duas modalidades mais estudadas atualmente são o HIFU e a crioterapia. O HIFU utiliza ondas de ultrassom convergentes que, ao se encontrarem no foco prostático, elevam a temperatura local acima de 80°C, provocando necrose coagulativa do tecido tumoral. O procedimento é guiado por imagem — ressonância magnética ou ultrassom transretal em tempo real — permitindo precisão milimétrica. Já a crioterapia funciona pelo princípio oposto: agulhas especiais são posicionadas na próstata através do períneo (entre o escroto e o ânus), e gás argônio circula por elas, congelando o tecido a temperaturas inferiores a -40°C. O congelamento seguido de descongelamento rápido rompe as membranas celulares e destrói o tumor.

Ambas são realizadas sob anestesia — geralmente raquianestesia ou anestesia geral — em regime ambulatorial ou com internação de 12 a 24 horas. A recuperação costuma ser rápida: cateter vesical por 5 a 10 dias, retorno às atividades leves em 1 semana. O grande diferencial em relação aos tratamentos tradicionais é a menor taxa de incontinência urinária e disfunção erétil, porque os feixes neurovasculares e o esfíncter urinário, quando distantes do foco tratado, permanecem intactos.

Indicações e critérios de seleção

A terapia focal não é para todos os pacientes com câncer de próstata. A seleção adequada é o que diferencia sucesso oncológico de falha terapêutica. Os critérios principais incluem:

  • Doença localizada, unilateral ou dominante em um lobo: comprovada por ressonância magnética multiparamétrica (RM-mp) de alta qualidade e biópsia de fusão
  • Grau histológico Gleason 6 (3+3) que não preenchem critérios para vigilância ativa ou Gleason 7 (3+4): pacientes com Gleason ≥ 4+3 ou características de alto risco geralmente não são candidatos
  • PSA < 15 ng/mL e estadio clínico T1c-T2a na maioria dos protocolos
  • Expectativa de vida > 10 anos: a terapia focal busca controle oncológico durável, não apenas paliação
  • Desejo do paciente de evitar efeitos colaterais dos tratamentos radicais após discussão detalhada de riscos e benefícios

A ressonância multiparamétrica de próstata (RM-mp) é indispensável: ela identifica lesões suspeitas (classificação PI-RADS 4 ou 5), orienta a biópsia dirigida e mapeia a extensão da doença. Sem essa imagem de alta resolução, a chance de deixar doença significativa não tratada aumenta consideravelmente. Muitos centros exigem ainda biópsia de saturação ou pelo menos biópsia de fusão (sobreposição da RM com ultrassom em tempo real) para confirmar que não há doença clinicamente significativa nos outros segmentos da próstata.

É importante destacar: terapia focal não é vigilância ativa. Na vigilância ativa, o tumor é apenas monitorado com PSA, toque retal e biópsias seriadas, sem intervenção imediata. Na terapia focal, há destruição tecidual ativa do foco conhecido. Também não substitui a prostatectomia radical ou radioterapia em pacientes de alto risco.

Acompanhamento e seguimento oncológico

Após a terapia focal, o seguimento é estruturado e rigoroso. O objetivo é detectar precocemente recidiva local ou progressão de doença fora da área tratada.

O protocolo típico inclui:

  • PSA sérico a cada 3-6 meses nos primeiros 2 anos, depois semestralmente. Diferentemente da prostatectomia radical (onde o PSA deve zerar), aqui espera-se queda significativa — geralmente 50 a 70% do valor pré-tratamento — mas não zero, pois o tecido prostático remanescente continua secretando PSA.
  • Ressonância magnética multiparamétrica de controle aos 6-12 meses pós-procedimento, para avaliar a área tratada e descartar captação suspeita em outras regiões.
  • Biópsia de controle aos 12 meses em muitos protocolos, dirigida à zona tratada e aos segmentos preservados. Essa biópsia confirma se houve destruição completa do tumor e se há doença emergente nas áreas que não foram submetidas a ablação.

A taxa de retratamento (necessidade de nova sessão de HIFU, crioterapia ou conversão para tratamento radical) varia entre 10 e 30% em 5 anos, conforme critérios de seleção e tecnologia empregada. Pacientes candidatos à terapia focal devem estar cientes dessa possibilidade e dispostos ao seguimento próximo.

Resultados oncológicos e preservação funcional

Os dados de controle oncológico da terapia focal para câncer de próstata vêm ganhando cada vez mais maturidade. Séries europeias e norte-americanas mostram taxas de sobrevida livre de falha entre 54% e 88% em 5 anos, dependendo da definição de falha utilizada. Quando falha é definida como necessidade de terapia radical ou sistêmica, metástases ou mortalidade câncer-específica, as taxas alcançam 88% aos 5 anos e 69% aos 7 anos para pacientes bem selecionados.

Um estudo multicêntrico publicado no European Urology em 2018, com 625 pacientes submetidos a HIFU focal, reportou sobrevida livre de falha de 88% aos 5 anos, com sobrevida livre de metástases de 98% e sobrevida câncer-específica de 100%. Dados ainda mais recentes, de 2026, com 3.477 pacientes tratados com HIFU ou crioterapia focal, demonstraram mortalidade câncer-específica de apenas 0,13% aos 10 anos e taxa de metástases de 3,3% no mesmo período. A crioterapia focal apresenta números similares ao HIFU em termos de controle oncológico. Importante: esses números referem-se a pacientes criteriosamente selecionados — quando a indicação é inadequada, os resultados caem drasticamente.

Vale ressaltar que aproximadamente 30-33% dos pacientes necessitam retratamento local ou terapia radical aos 10 anos em análise por intenção de tratar, embora em análise por protocolo (excluindo pacientes que optaram por terapia radical quando ainda elegíveis para nova sessão focal) esse número caia para 8,9-13%.

Em termos de preservação funcional, os ganhos são expressivos:

  • Continência urinária: mantida em 92-100% dos pacientes, contra 70-90% na prostatectomia radical
  • Função erétil: preservada em até 90% quando os feixes neurovasculares estão distantes do foco tratado, especialmente em pacientes com função erétil plena pré-tratamento. A terapia focal é o fator mais importante relacionado à preservação da potência sexual (OR 7,7 aos 3 meses; OR 3,9 aos 12 meses) comparado à terapia de glândula total.
  • Ejaculação: também pode ser preservada em parte dos casos, diferentemente da cirurgia radical.

Esses percentuais variam conforme localização do tumor, extensão da ablação e fatores individuais (idade, comorbidades, função basal). A terapia focal não é isenta de efeitos adversos: sintomas urinários irritativos transitórios, retenção urinária temporária, infecção urinária e, mais raramente, fístula uretroretal são possíveis. A discussão pré-operatória detalhada sobre expectativas realistas é fundamental.

Quando considerar terapia focal

A terapia focal é uma opção a considerar em homens com câncer de próstata localizado, doença de baixo a intermediário risco, comprovada por imagem de alta qualidade e biópsia dirigida, que desejam tratamento ativo mas buscam minimizar impacto funcional. Não substitui os tratamentos consagrados em pacientes de alto risco, doença bilateral extensa ou Gleason ≥ 4+3.

Três situações típicas no consultório onde a terapia focal entra na discussão:

  • Paciente de 55-65 anos, sexualmente ativo, PSA 6 ng/mL, RM mostrando lesão PI-RADS 4 isolada no lobo esquerdo, Gleason 3+3 ou 3+4 na biópsia de fusão, sem doença em biópsias sistemáticas dos outros segmentos
  • Homem de 70 anos em vigilância ativa há 2 anos, com progressão de Gleason 3+3 para 3+4 em biópsia de controle, doença ainda localizada, desejando tratamento definitivo mas preocupado com incontinência
  • Paciente com comorbidades cardiovasculares ou pulmonares que aumentam risco anestésico-cirúrgico da prostatectomia radical, mas com doença oncológica passível de controle local

É fundamental que o paciente compreenda o compromisso de seguimento oncológico próximo e a possibilidade de retratamento. Terapia focal exige disciplina: PSA regular, RM de controle, biópsias de vigilância. Homens que não conseguem aderir a esse acompanhamento podem não ser bons candidatos.

Para decisão compartilhada e individualizada, agende uma avaliação uro-oncológica detalhada onde discutiremos seu caso completo, exames de imagem, anatomia patológica e objetivos pessoais. Mais informações podem ser encontradas na página dedicada sobre o HIFU

Perguntas frequentes

Terapia focal cura o câncer de próstata?

Terapia focal destrói o foco tumoral conhecido e comprovado por imagem e biópsia. Em pacientes bem selecionados, o controle local é comparável a tratamentos radicais em médio prazo (5 anos), com preservação funcional superior. “Cura” em oncologia é conceito complexo: seguimento rigoroso é essencial para detectar recidiva ou doença fora da área tratada, situações que podem exigir retratamento.

HIFU e crioterapia são aprovados no Brasil?

Sim, ambas as tecnologias possuem registro na ANVISA e são realizadas em centros especializados no Brasil. Ainda não fazem parte da cobertura obrigatória de convênios, sendo procedimentos predominantemente particulares. A Sociedade Brasileira de Urologia reconhece a terapia focal como alternativa em casos selecionados.

Posso fazer terapia focal mesmo com Gleason 4+3?

Gleason 4+3 (escore 7, padrão primário 4) representa doença de risco intermediário-alto. A maioria dos protocolos de terapia focal limita-se a Gleason 3+4 (padrão primário 3). Casos de 4+3 podem ser considerados excepcionalmente, mas a preferência da maioria dos uro-oncologistas é tratamento radical (cirurgia ou radioterapia) pela maior chance de doença multifocal e agressiva.

Quanto tempo de recuperação após HIFU ou crioterapia?

Cateter vesical por 5 a 10 dias, retorno a atividades leves em 7-10 dias, exercícios moderados após 3 semanas. Atividade sexual pode ser retomada após 4-6 semanas, conforme orientação individualizada. A recuperação é geralmente mais rápida que prostatectomia radical, sem necessidade de afastamento prolongado.

Se a terapia focal falhar, ainda posso fazer cirurgia ou radioterapia?

Sim. Terapia focal preserva as opções de resgate: prostatectomia radical, radioterapia ou novo ciclo de ablação focal são viáveis. A fibrose local pode aumentar a complexidade técnica da cirurgia de resgate, mas séries cirúrgicas mostram que é factível com resultados oncológicos adequados quando indicada precocemente após falha.

Vigilância ativa ou terapia focal: qual escolher?

Depende do perfil da doença e do perfil psicológico do paciente. Vigilância ativa é para doença de muito baixo risco (Gleason 6, PSA baixo, volume tumoral pequeno), exigindo monitoramento sem intervenção imediata. Terapia focal trata ativamente o foco conhecido, sendo intermediária entre vigilância e tratamento radical. Pacientes ansiosos com a ideia de “conviver com o tumor” podem preferir terapia focal; pacientes confortáveis com seguimento próximo e doença indolente podem optar por vigilância ativa.

Conclusão

Terapia focal — HIFU e crioterapia — representa uma fronteira promissora no manejo do câncer de próstata localizado, oferecendo destruição direcionada do tumor com preservação expressiva da função urinária e sexual. A seleção rigorosa de candidatos, baseada em ressonância multiparamétrica de alta qualidade e biópsia de fusão, é determinante para o sucesso. Não substitui tratamentos radicais em doença de alto risco, mas pode ser opção valiosa em homens com doença focal de baixo a intermediário risco, dispostos ao seguimento oncológico próximo.

Se você recebeu diagnóstico de câncer de próstata localizado e deseja discutir se a terapia focal é adequada ao seu caso, agende uma avaliação pelo WhatsApp (11) 91722-0682 ou pela página /fale-com-seu-medico/. O atendimento é particular, na Clínica MomentumVita, Rua Vergueiro 360, Conjunto 407, Liberdade, São Paulo/SP. A decisão sobre qual tratamento escolher deve ser compartilhada, individualizada e baseada em evidências — não em promessas genéricas.

Sobre o autor

Dr. Thiago Camelo Mourão · Uro-Oncologista e Cirurgião Robótico · CRM-SP 152.747 · RQE 65.767

O Dr. Thiago Mourão é urologista com atuação dedicada à uro-oncologia, à cirurgia robótica e ao tratamento da próstata aumentada (HoLEP). Tem PhD em Oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center e atua como proctor de cirurgia robótica e de HoLEP, formando outros cirurgiões nessas técnicas. Sua prática é orientada por evidência e por volume cirúrgico real, com foco em decisões individualizadas e na preservação funcional de cada paciente. Atendimento exclusivamente particular na Clínica MomentumVita, em São Paulo.

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