HIFU ou cirurgia robótica: quando a terapia focal faz sentido no câncer de próstata

HIFU ou cirurgia robótica? Essa pergunta ficou muito mais frequente no consultório desde que o Conselho Federal de Medicina regulamentou, em maio de 2026, o uso do ultrassom focalizado de alta intensidade e da crioablação no tratamento do câncer de próstata. Para muitos homens recém-diagnosticados, a ideia de tratar apenas a área doente — preservando o restante da próstata, a continência e a ereção — soa como a escolha óbvia.

Na prática, a resposta depende de critérios bem definidos. A terapia focal pode ser uma excelente opção para um grupo específico de pacientes e uma escolha arriscada para outros. A prostatectomia radical robótica, por sua vez, continua sendo o tratamento de referência para a maior parte dos tumores que precisam ser tratados.

Este guia explica o que cada abordagem oferece, o que a nova resolução do CFM permite e proíbe, o que os estudos mostram até aqui e quais perguntas ajudam a tomar essa decisão com segurança.

O que é o HIFU e como ele difere da prostatectomia robótica

O HIFU (do inglês high-intensity focused ultrasound) usa ondas de ultrassom concentradas em um ponto da próstata para elevar a temperatura do tecido e destruí-lo. O procedimento é feito por via transretal, sem cortes, sob anestesia geral, guiado por imagens que se fundem com a ressonância magnética. Quando usado como terapia focal, trata apenas a região onde o tumor foi localizado, com uma margem de segurança de cerca de 1cm.

A prostatectomia radical robótica segue a lógica oposta: retira a próstata inteira, as vesículas seminais e, quando indicado, os linfonodos da pelve. A plataforma robótica oferece visão ampliada em três dimensões e instrumentos articulados, o que permite dissecção precisa ao redor dos nervos da ereção e do esfíncter urinário.

Uma analogia ajuda a visualizar a diferença. Se a próstata fosse uma laranja com uma única área estragada, a terapia focal retiraria apenas aquele gomo; a cirurgia retiraria a laranja inteira. A primeira estratégia funciona muito bem quando sabemos com segurança que só aquele gomo está comprometido. A segunda é mais confiável quando há dúvida sobre outras áreas.

O que diz a Resolução CFM nº 2.457/2026

A resolução publicada no Diário Oficial da União em 27 de maio de 2026 trouxe regras claras, que valem para todo o país:

  • A terapia focal não é o tratamento primário padrão-ouro do câncer de próstata e só deve ser proposta após decisão compartilhada com o paciente.
  • Indicação principal: câncer de próstata de risco intermediário favorável, unifocal e unilateral, sem discordância de lado entre a ressonância e a biópsia.
  • Uso vedado em tumores de risco intermediário desfavorável, alto e muito alto.
  • Uso excepcional em tumores de baixo risco com lesões de grande volume ou em pacientes que não conseguem seguir a vigilância ativa.
  • Resgate: a terapia focal pode ser indicada após falha de radioterapia externa ou braquiterapia.
  • Técnicas autorizadas: HIFU e crioablação. Terapia fotodinâmica, eletroporação irreversível, ablação a laser focal e TULSA continuam restritas a protocolos de pesquisa.

A resolução também padronizou o seguimento. Depois da terapia focal, o paciente precisa de PSA a cada três meses no primeiro ano, a cada seis meses nos dois anos seguintes e anualmente depois disso, além de ressonância magnética anual e de uma biópsia de controle entre seis e doze meses após o procedimento.

Na prática, isso significa que a terapia focal regulamentada é uma opção para um grupo bem delimitado de pacientes, e que ela exige um compromisso de acompanhamento mais intenso do que a cirurgia.

O que os estudos mostram sobre HIFU e prostatectomia

A evidência sobre terapia focal cresceu bastante na última década, mas ainda tem limitações importantes.

Coorte britânica de HIFU focal: um estudo multicêntrico com 625 homens tratados com HIFU focal mostrou sobrevida livre de falha de 88% em cinco anos, sobrevida livre de metástases de 98% e nenhuma morte pelo câncer no período. “Falha”, nesse contexto, inclui a necessidade de novo tratamento — o que é relativamente comum e faz parte da estratégia.

Estudo HIFI: o maior estudo prospectivo comparando HIFU e prostatectomia radical, publicado na European Urology, acompanhou 3.328 pacientes franceses com câncer localizado. Em 30 meses, 90% dos pacientes do grupo HIFU e 86% do grupo cirúrgico estavam livres de tratamento de resgate, resultado considerado não inferior. A piora da continência urinária em 12 meses foi menos frequente após HIFU (29% contra 44%), e a função erétil também foi mais preservada. Em contrapartida, eventos adversos em geral foram mais frequentes após HIFU (cerca de 24% contra 15%), principalmente retenção urinária, com taxas semelhantes de complicações graves.

Dois detalhes desse estudo merecem atenção. Primeiro, ele não foi randomizado — os pacientes escolheram o tratamento, o que pode favorecer um dos grupos. Segundo, a maior parte dos pacientes recebeu HIFU de toda a glândula ou de grande parte dela, e não apenas terapia focal estrita.

O que ainda falta: o estudo randomizado britânico PART, que compara ablação parcial com tratamento radical em tumores de risco intermediário, está em andamento e deve divulgar resultados apenas por volta de 2029 ou 2030. Por isso, a diretriz da Associação Europeia de Urologia ainda recomenda que a terapia focal seja oferecida em contexto de estudo clínico ou coorte prospectiva bem estruturada.

Quando a terapia focal faz sentido

Reunindo a resolução do CFM e a evidência disponível, o perfil em que o HIFU focal costuma fazer mais sentido é:

  • tumor de risco intermediário favorável (em geral, Gleason 3+4, ISUP 2, com PSA moderado);
  • lesão única, bem visível na ressonância multiparamétrica e confirmada por biópsia direcionada por fusão;
  • ausência de tumor significativo no outro lado da próstata, comprovada por biópsia sistemática associada;
  • paciente que valoriza muito a preservação da função sexual e urinária e aceita um seguimento rigoroso, com PSA, ressonância e nova biópsia;
  • paciente que compreende a possibilidade de precisar de um segundo tratamento no futuro.

A qualidade do diagnóstico é o que sustenta essa decisão. Por isso a biópsia de próstata por fusão é peça central: tratar apenas uma área só é seguro quando há confiança de que o restante da glândula está livre de doença relevante.

Quando a cirurgia robótica continua sendo a melhor escolha

Em várias situações, a prostatectomia radical robótica segue sendo a opção mais adequada:

  • tumores de risco intermediário desfavorável, alto ou muito alto, em que a terapia focal é vedada;
  • doença multifocal ou bilateral, com lesões nos dois lados da próstata;
  • tumor próximo ao ápice, à uretra ou com suspeita de extensão para fora da cápsula;
  • pacientes que preferem um tratamento com seguimento mais simples, baseado principalmente no PSA;
  • próstatas muito volumosas ou com sintomas urinários importantes, que a cirurgia também resolve;
  • desejo de um estadiamento completo pela análise da peça cirúrgica e dos linfonodos.

A cirurgia robótica também evoluiu na preservação funcional. Técnicas como a preservação dos feixes neurovasculares e abordagens individualizadas aceleram a recuperação da continência em pacientes selecionados. Em minha experiência como cirurgião robótico, a conversa franca sobre expectativas de continência e ereção, com base no perfil de cada paciente, é tão importante quanto a técnica em si.

E se a terapia focal falhar?

Essa é uma das perguntas mais importantes antes de escolher o HIFU. Recorrência na área tratada ou surgimento de tumor em outra região da próstata podem ocorrer, e o seguimento rigoroso existe justamente para detectá-los cedo.

Quando isso acontece, há caminhos possíveis: repetir o HIFU em casos selecionados, realizar radioterapia ou fazer a prostatectomia radical robótica de resgate. A cirurgia após terapia focal é viável, mas a fibrose causada pelo tratamento anterior torna o procedimento tecnicamente mais exigente, e os resultados funcionais tendem a ser um pouco inferiores aos da cirurgia primária. Esse cenário, semelhante ao da cirurgia após falha da radioterapia, deve fazer parte da conversa desde o início.

Perguntas que ajudam a decidir

Antes de optar por HIFU ou cirurgia robótica, vale discutir com o urologista:

  • Qual é exatamente o grupo de risco do meu tumor pelos critérios atuais?
  • A ressonância e a biópsia concordam sobre o lado e o número de lesões?
  • A vigilância ativa seria uma alternativa no meu caso?
  • Estou disposto a fazer PSA trimestral, ressonância anual e nova biópsia?
  • O que acontece se eu precisar de um segundo tratamento?
  • Quais são as minhas chances realistas de preservar continência e ereção com cada opção?

Para tumores de baixo risco, a vigilância ativa costuma ser a primeira opção, e nem sempre é necessário tratar. Um panorama mais amplo das técnicas ablativas está no artigo sobre terapia focal com HIFU e crioterapia.

Quando procurar um uro-oncologista

Se você recebeu o diagnóstico de câncer de próstata localizado e está em dúvida entre HIFU e cirurgia robótica, a avaliação deve revisar em detalhe a ressonância, a biópsia, o PSA e as suas prioridades de vida. A decisão é individual e compartilhada, e uma segunda opinião é sempre bem-vinda nesse momento. Na página sobre câncer de próstata há uma visão completa das opções de diagnóstico e tratamento.

Perguntas frequentes

O HIFU é aprovado no Brasil para tratar câncer de próstata?

Sim. A Resolução CFM nº 2.457/2026 autorizou o HIFU e a crioablação para casos selecionados, principalmente tumores de risco intermediário favorável, unifocais e unilaterais. A própria norma deixa claro que a terapia focal não é o tratamento primário padrão-ouro e que a indicação exige decisão compartilhada com o paciente.

O HIFU cura o câncer de próstata?

Em pacientes bem selecionados, o HIFU focal pode controlar o câncer por muitos anos, com sobrevida livre de falha em torno de 88% em cinco anos em grandes séries. Parte dos pacientes, porém, precisa de um segundo tratamento. Por isso o seguimento com PSA, ressonância e biópsia de controle é obrigatório.

Gleason 4+3 pode ser tratado com terapia focal?

Em geral, não. Tumores Gleason 4+3 (ISUP 3) costumam ser classificados como risco intermediário desfavorável, grupo em que a resolução do CFM veda a terapia focal. Nesses casos, cirurgia robótica ou radioterapia são as opções indicadas.

Depois do HIFU ainda é possível fazer a cirurgia robótica?

Sim. A prostatectomia robótica de resgate é viável após terapia focal, mas a fibrose deixada pelo tratamento torna a cirurgia tecnicamente mais exigente, e a recuperação de continência e ereção tende a ser um pouco inferior à da cirurgia primária. Isso deve ser considerado na escolha inicial.

O HIFU preserva a ereção e a continência melhor que a cirurgia?

Os estudos mostram menor impacto do HIFU sobre a continência e a função erétil em comparação com a prostatectomia radical. A diferença depende, porém, da localização do tumor, da função prévia do paciente e da técnica cirúrgica utilizada. A cirurgia robótica com preservação nervosa também alcança bons resultados funcionais em pacientes selecionados.

Como é o acompanhamento depois da terapia focal?

A resolução do CFM determina PSA a cada três meses no primeiro ano, a cada seis meses nos dois anos seguintes e anual depois disso, ressonância magnética anual e biópsia de controle entre seis e doze meses após o procedimento. O acompanhamento é mais intenso do que após a prostatectomia.

Conclusão

A escolha entre HIFU e cirurgia robótica não é uma disputa entre técnica nova e técnica antiga, mas uma questão de seleção. A terapia focal, agora regulamentada pelo CFM, faz sentido para tumores de risco intermediário favorável, únicos e bem mapeados, em pacientes que aceitam um seguimento rigoroso. Para tumores mais agressivos, multifocais ou bilaterais, a prostatectomia radical robótica continua sendo a referência.

Se você está diante dessa decisão e quer avaliar qual caminho se aplica ao seu caso, agende uma consulta pelo WhatsApp +55 11 91722-0682 ou pela página fale-com-seu-medico. O atendimento é particular, na Clínica MomentumVita, em São Paulo.

Sobre o autor

Dr. Thiago Camelo Mourão · Urologista e Cirurgião Robótico · CRM-SP 152.747 · RQE 65.767

O Dr. Thiago Mourão é urologista com atuação dedicada à uro-oncologia, à cirurgia robótica e ao tratamento da próstata aumentada (HoLEP). Tem PhD em Oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center e atua como proctor de cirurgia robótica e de HoLEP, formando outros cirurgiões nessas técnicas. Sua prática é orientada por evidência e por volume cirúrgico real, com foco em decisões individualizadas e na preservação funcional de cada paciente. Atendimento exclusivamente particular na Clínica MomentumVita, em São Paulo.

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